• Jander Gomez

ESTOU FALANDO SOBRE VOZ, NA TENTATIVA DE SER OUVIDO.

Atualizado: 24 de mar.





[...] Ou eu aceito o desafio de tentar dizer algo de inteligente sobre o que estão produzindo ou eu teria a falsa inteligência de alguns acadêmicos, colegas meus, que têm um discurso pronto para tudo. (Rocha, 2007).

O caminho do escritor passa por muitos percalços, ainda mais quando falamos de escritor brasileiro. Como se já não bastasse os desafios da profissão, temos ainda que encarar cotidianamente nossos demônios internos e os mistérios da língua e da linguagem. Desde quando iniciei minha carreira como escritor, me embrenhei numa aventura de descoberta, não só das palavras, mas também de mim. Busquei e de certa forma ainda busco encontrar a tal da “minha voz”, e nesse processo passei a ouvir, compreender e estudar todas as outras vozes que não eram minhas na tentativa de descobrir um padrão e assim poder escrever com mais coerência, vivacidade e claro, autenticidade.


Independente da linguagem da arte que venhamos a trabalhar, para nós os tão ditos artistas, encontrar uma voz é sempre um problema, uma vez que nossa identidade muda ao passo que também mudamos. Frequentemente vemos autores trocando voz por estilo e sendo publicados como “a voz de uma geração” ou de um determinado grupo. Isso só me faz lembrar do caso do “fenômeno nunca lido” – até então – Giovanni Martins, de O sol na cabeça (Companhia da letras, 2018). O livro que antes de ser publicado já era best-seller, voz literária da favela e clássico moderno. Como diz Alfred Alvarez em A voz do Escritor (Civilização brasileira, p.149. 2006), “a fama não merece confiança e somente a história será nosso juiz”.


Para o Professor e Doutor de Linguística da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Marlon Leal Rodrigues “a língua não tem vaidade”. Eu digo que a ‘literatura não é vaidosa’, ela se vale das percepções que temos da vida, nossa principal fonte referencial ao que chamamos de voz. E a voz não tem vaidade. O estilo tem. O estilo pode ser rebuscado, chavoso, seco, rude, abrupto... estilo é baseado em como cada autor trabalha as palavras, seu nível de formalidade, sua estrutura de frases, sua abordagem. Voz é tudo aquilo que está no cerne dos floreios do estilo. Imagine que a voz seja o alicerce e as bases de uma casa, enquanto o estilo é tudo que a adorna e complementa.


Ferdinand de Saussure (Genebra, 26 de novembro de 1857 — Morges, 22 de fevereiro de 1913) desmembrou a linguagem tornando-a um objeto de estudo autônomo. E desde então, muito se foi feito na tentativa de desvendar essa ferramenta que nos une e nos caracteriza. As faculdades de Letras formam professores, revisores, tradutores, pesquisadores, mas não formam escritores. Escritores se formam na lida diária da leitura, da escrita e no estudo das palavras. As palavras possuem história e criam histórias. A linguagem é uma ferramenta de direcionamento a nossa voz, um elemento vivo e em constante transformação. Uma vez que somos seres simbólicos, compreendam que a língua enquanto símbolo, e que também é um elemento vivo e em constante transformação, sempre atenderá a necessidade de um determinado grupo. Nesse sentido, ler ainda é o melhor caminho para se tornar um crítico literário do que se lê e do que se escreve e, consequentemente, dar um melhor direcionamento a sua voz.


Para fechar esse monte de aspas que abri e não defecar regra alguma sobre quaisquer produção literária, e sabendo da amplitude do assunto, encaro essa tentativa de nos expressarmos como uníssona. A relevância com que as academias tentam desmistificar a linguagem e a língua, reverberam o pensamento de Luís Augusto Fischer ao afirmar que uma das características mais marcantes da literatura brasileira é a opção dos seus autores pelo realismo. Para essa realidade assimilada, Carolina Maria de Jesus (Quarto de despejo, Ed.Ática. 1960), Alberto Guzik (Risco de vida, Ed.Globo, 1995), Tatiana Nascimento (Um sopro de vida no meio da morte. Macondo editora, 2019) e Tobias Carvalho (As coisas. Ed.Record, 2021) mestram. O realismo é nossa voz.


Voz é tentativa de ser legítimo e crível, carregada da esperança de ser ouvido, lido. No âmbito das descobertas e tentativas de sermos relevantes para nosso trabalho, posso dizer que a cada passo que damos em direção ao nosso autoconhecimento, desconhecemos quem fomos. A tão dita “voz do escritor”, se torna um peso, um fardo árduo a ser suplantado por toda uma vida e postumamente ser lembrado por ela.

Bendito daqueles que conseguem.




Dicas de leitura


a) Vozes Negras. Diversos autores. Editora Se liga Editorial, Rio de Janeiro. 2019 – Clique para ver.

b) Vozes Nordestinas. Diversos autores. Editora Se liga Editorial, Rio de Janeiro. 2021 – Clique para ver.

c) 07 notas sobre o apocalipse ou poemas para o fim do mundo. Tatiana Nascimento. Editora Garupa. 2019 – Clique para ver.



Referência:


FERRÉZ (2005a). Terrorismo literário. In: FERRÉZ (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir. Disponível em: https://goo.gl/lVWvqG. Acesso em: 25 maio 2013.


PELLEGRINI, Tânia (2001). A ficção brasileira hoje: os caminhos da cidade. Revista de Crítica Literária Latinoamericana, Lima-Hanover, ano 27, n. 53, p. 115-118.


PELLEGRINI, Tânia (2004). No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 24, p. 15-34, jul./dez.


ROCHA, João César de Castro. (2007). Desafio ao malandro. Época, São Paulo, n. 487, 17 set. Disponível em: https://goo.gl/w9ywBH. Acesso em: 12 out. 2013.


 


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