• Ana Paula Ostapenko

Livro sobre a história da tatuagem mostra a ressignificação dessa arte ao longo dos tempos


“Afinal, o que aconteceu para que a tatuagem deixasse de ser uma prática de modificação corporal associada a grupos socialmente marginalizados e se inscrevesse, atualmente, nos mais diversos corpos das mais diversas camadas sociais?

Movido por essa pergunta é que este livro, resultado de um estudo pioneiro no campo da historiografia nacional, visita fonte históricas de natureza distinta, produzindo uma História da tatuagem no Brasil que analisa transformações nas técnicas de tatuar, no ofício dos tatuadores e nos espaços de produção das tatuagens ao longo do século XX a fim de compreender a ressignificação da tatuagem contemporânea no país”.

É o que diz a contracapa do livro “História da tatuagem no Brasil, Doutorando em História, Fernando Lucas Garcia de Souza, que pesquisou por anos sobre essa modificação corporal que hoje nos parece tão comum em corpos passeando por aí.

O Rolê 067 teve uma conversa online com Fernando e ele contou um pouco mais sobre essa pesquisa que gerou um livro muito interessante e pioneiro, confira:



Rolê: Como surgiu a ideia pra falar sobre tatuagem?

Fernando: A ideia de pesquisar a tatuagem surgiu no curso de graduação em História, em Três Lagoas/MS. Na época, em uma disciplina de Introdução à Antropologia, um professor solicitou um trabalho que analisasse qualquer aspecto das sociedades humanas, de livre escolha. Eu havia começado o processo de me tatuar, e havia uma certa “pulga atrás da orelha” que me questionava coisas como: “Por que a tatuagem não é mais um estigma como antes?” “Como eu consegui um emprego mesmo sendo tatuado? Isso não importa mais?”. E assim iniciei minha trajetória de pesquisa. E já se vão uns 7 ou 8 anos lendo tudo que encontro sobre isso...


Rolê: Hoje muito mais aceita pela sociedade do que anos atrás?

Fernando: Sim, com certeza. O livro trata não de mostrar “se” a tatuagem é socialmente mais admitida, mas sim de investigar “o que aconteceu” para que isso fosse possível. O foco que escolhi, neste livro, foi investigar as transformações no status do ofício do tatuador – que antes era visto como um ambulante, um amador, e hoje é encarado como um profissional, ou mesmo um artista; e o surgimento dos estúdios de tatuagem. Ou melhor, como a tatuagem migrou de uma prática realizada em qualquer lugar, como as ruas, os bares, os navios e as prisões, para uma prática ultra segura, realizada em estúdios que parecem uma clínica médica. E, claro, entendendo como isso mudou o significado da tatuagem na sociedade brasileira.


Rolê: Como foi o processo de pesquisa?

Fernando: O processo de pesquisa foi longo, mas muito divertido. Inicialmente eu li tudo que encontrava sobre o tema. E detalhe, não havia naquele momento nenhum livro sobre a história da tatuagem no Brasil, com exceção de um livro escrito em 1997 por um jornalista chamado Toni Marques. Até hoje, o livro dele é muito bom! Mas deixava lacunas importantes sem resposta. Minha decisão foi responder essas perguntas. Para fazer isso, pesquisei em jornais, revistas, livros de medicina, criminologia, produzidos ao longo de todo o século XX. Pesquisei também direto com algumas personagens que viveram momentos mais dessas transformações, nos anos de 1970 e 1980. Fui à São Paulo, ao Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, sempre pesquisando, debatendo o tema com outros pesquisadores e entrevistando tatuadores e tatuados que encontrava pelo caminho. Tudo isso resultou em minha pesquisa de Mestrado, que depois inspirou o livro.


Rolê: Como você vê o futuro da Tatuagem?

Fernando: Um historiador que eu gosto muito, certa vez disse: “nós, historiadores, somos péssimos profetas”. É muito difícil para um historiador dizer o que algo vai ser no futuro, justamente porque aprendemos que a forma como a humanidade lida com algum aspecto – cultural, social, religioso, etc. – muda muito ao longo do tempo. A tatuagem, por exemplo, já foi sinal de infâmia, já foi marca de condenação em criminosos, mas também já foi moda juvenil e mesmo marca de status de reis e chefes tribais, só permitida aos grandes guerreiros e figuras destacadas. No curto prazo, é possível dizer que a tatuagem tende a ser “normalizada”, porque este é o movimento que vem acontecendo desde os anos de 1960, e se intensificou nos anos de 1990 (inclusive, estou preparando um próximo livro sobre isso, rs). Mas, tratando-se da história humana no longo prazo, em 100, 200 ou 500 anos, tudo é possível. O que posso dizer é que há uma grande chance de ela jamais desaparecer, já que é uma prática que existe há mais de 10 mil anos.


Pra você que se interessou sobre o assunto, o livro A História da Tatuagem no Brasil tem o investimento de R$ 29,90 e você pode adquirir pelo Whatsapp (67) 99263-1771 ou pelo e-mail fernandogarcia.historia@gmail.com

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