• Jander Gomez

UMA PARCA ANÁLISE DOS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO INDÍGENA NO MS



O ensino no Brasil passa por mudanças, com a finalidade de melhorar a qualidade do processo educativo e consequentemente à aprendizagem. Certamente algumas mudanças destravam alguns mecanismos aos quais a sociedade não está comumente segura, gerando desafetos. É correto dizer que essa situação está presente em todas as classes sociais, bem como nas comunidades indígenas. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, no Artigo 78, inciso I, determina que:


“o desenvolvimento de programas integrados de ensino e pesquisa, para oferta de educação escolar bilíngue e intercultural aos povos indígenas, com os objetivos de: proporcionar aos índios, suas comunidade e povos, a recuperação de suas memórias históricas, a reafirmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências;”


Dessa forma a LDB garante que o indígena e “suas comunidades e povos tenham o acesso às informações e conhecimentos técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não indígenas”.


Promover, difundir e ampliar as formas de pensamento e de suas competências é dever de toda uma sociedade. Entendo que a arte é uma das maiores linguagens de apreciação histórica, pois é nela que muitos relatos heróicos foram rememorados, memórias são relembradas, aspectos sociais e psicossociais são compreendidos e claro, também o entretenimento. A difusão do pensamento passa pelo entendimento de mundo ao qual estamos inseridos e pela observação do mundo alheio, distinto do nosso.


Os trabalhos em sala de aula na promoção das diversas identidades étnicas por meio das linguagens da arte têm tentado aprimorar a observação da Cultura Indígena no MS. Dentre tantos embates diários à própria sobrevivência, a luta pela terra, o reconhecimento de suas identidade de povos originários, a percepção sobre a apreensão das vozes Indígenas é uma das que mais me chamam a atenção.


Partindo desse pressuposto, em observância ao tema por mim proposto, elucida-se um exemplo vivo desse silenciamento. Note: estamos falando de um Estado onde o culto à terra, ao trabalho no campo, precarização da mão de obra, latifúndio, são fortemente defendidos e incentivados. A Bovinocultura impera.


Um exemplo prático: O município de Terenos localizado a 28km de Campo Grande, recebe esse nome devido em sua história territorial, ter sido corredor de passagem para os indígenas da etnia Terena que se deslocavam para Aquidauana e Miranda. Contudo, o município não possuí implementado dentro de suas políticas educacionais, nenhuma referência a literatura, cultura, ou tradição indígena Terena. Dessa forma, o processo educacional, a quebra da colonialidade é caracterizado pelo distanciamento do conteúdo oferecido pela gerencia educacional em relação à realidade desse povo e da cultura municipal. De forma para se adequar ao processo histórico da cidade, têm se trabalhado de maneira paralela na utilização do artesanato, da literatura e da pintura, como forma de se pensar a subsistência dessa etnia que empresta seu nome à cidade.


Outro dado a se considerar nesse processo, é o fato de que, em sala de aula não existe a inclusão do aluno indígena; não falo somente da inclusão física, mas da inclusão de sua cultura, sua voz. Nesse sentido, D’Ambrósio (1996, p.117) diz que:


[...] isso se faz com povos, em especial com os indígenas, seja na linguagem, seja nos sistemas de conhecimento [...] Sua língua é rotulada, inútil, sua religião torna-se “crendice”, sua arte e seus rituais são folklore, sua ciência e sua medicina são “superstições” e sua matemática é “imprecisa” e “ineficiente”, quando não “inexistente.[...]”.


A educação escolar deve-se, não só, iniciar pelas matrizes curriculares, mas também pela vivência do aluno, e isso não significa que ela deva ser reduzida ao saber cotidiano. O desafio educacional consiste em estruturar condições para que ocorra uma evolução desta situação inicial rumo aos conceitos previstos (PAIS, 2002, p.28). Baseando-se nessa premissa, é notório que o saber dos povos originários não tem sido repassados aos povos não indígenas (termo pessoal), numa clara repetição do processo histórico de escolarização portuguesa imposto aos indígenas desde sempre.


É bonito o Estado dizer que “zela pela cultura indígena” quando na verdade se utiliza dela como muleta para alavancar seu apagamento. Esse discurso é como um elevador quebrado dentro de um hospital. Não serva pra nada.


Um ponto importante é que, para que ocorra essa inclusão, não basta tão somente que esteja expresso nas leis, não desprezando-as, pois, servem de ponto de partida para as mudanças, mas é necessário que se vá mais além dos espaços definidos como regular. Temos que falar dos professores, que independente da área ou série de atuação, necessitam que sua formação seja continuada, principalmente a cerca do processo de inclusão, sobre necessidades educacionais e o desenvolvimento cognitivo da aquisição do conhecimento, objetivo que deve ser alcançado pela escola, onde ele próprio, o professor, é mediador.


É urgente a necessidade de se repensar a educação indígena; dentro de sala de aula com mais abertura para o próprio indígena repassar seu conhecimento, sua história, sua cultura. Garantir a acessibilidade dos indígenas as escolas regulares e trabalhar diariamente a literatura e o notório saber desse povo, o rigor científico das disciplinas em pró do respeito ao conhecimento do estudante indígena na reafirmação de seus saberes e na implementação de sua visão de cidadão no mundo.


Vale ressaltar aqui, algumas questões importantes nesse processo: não somente o agente público deve repensar essas ações. o terceiro setor também é responsável nessa empreitada, uma vez que também se utiliza dos conhecimentos originários. As Universidades, com programas de difusão dessa cultura dentro do espaço escolar. Sair de dentro da casinha acadêmica. Em referencia à Terenos, pensar numa legislação/programa/projeto já que não há uma política publica de fomento e inclusão da cultura indígena e de sua relação histórica com o surgimento da cidade, tanto em sala de aula quanto com a participação pública. Mesmo não existindo público estudantil indígena na rede municipal (como pode ser alegado), é necessário que tenha, ciência da importância dessa cultura para o cidadão terenense.

1. Dica de concurso literário


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2. Dicas de leitura


a) Contos indígenas brasileiros. Daniel Munduruku, 2004. Editora Global. CLIQUE PARA VER

b) Criaturas de Ñanderu. Graça Graúna. 2009. Amarilys Editora. CLIQUE PARA VER

c) A cura da terra. Eliana Potiguara. 2015. Editora do Brasil. CLIQUE PARA VER

d) A árvore de carne e outros contos. Lia Manápoti. 2012. Editora Tordesilhas. CLIQUE PARA VER


3. Referências:

BRASIL. Constituição Federal 1988. Brasília: Senado, 1988.


Lei das Diretrizes Básicas da Educação: Site


D’AMBRÓSIO, U. Diário na escola In: Diário do Grande ABC- Santo André. Entrevista com Ubiratan D’Ambrósio 31 de outubro de 2003. Disponível em <http://etnomatematica.org/articulos/boletin.pdf>. Acesso em: 5, Março. 2022.


MOSQUERA, J. J. M.; STOBÄUS, C. D. O professor, personalidade saudável e relações interpessoais: por uma educação da afetividade. In: ENRICONE, D. (Org.). Ser professor. 4. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.


RIGOTTO, Gaudêncio Os circuitos da história e o balanço da educação no Brasil na primeira década do século XXI. In Revista Brasileira de Educação v. 16 n. 46 jan./abr. 2010.

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