• Jander Gomez

VAMOS CONVERSAR SOBRE A LINGUAGEM, LÍNGUA E LITERATURA?



A literatura é parte integrante e fundamental dentro da criação, manutenção e posteridade de uma sociedade. Uma ferramenta cultural que desde os primórdios é berço de uma extensa bagagem histórica objetivando ao homem a análise, compreensão e prospecção de sua história. Usarei as palavras de Antonio Candido, que define claramente o que é literatura.

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado.

O estudo da literatura, de suas linguagens e da língua proporciona o aprimoramento da escrita, da própria literatura, da arte, da ciência, política social e da educação; nesse contexto, a busca pela compreensão da palavra e compreensão da linguagem, permite parafrasear o personagem Alvo Dumbledore (Harry Potter e as relíquias da morte. Ed.Rocco.2007) que a língua é, "[...], nossa inesgotável fonte de magia. Capaz de formar grande sofrimento e também de remediá-lo”. A fantasia de Patrick Rothfuss, (O nome do vento. Ed. Leya.2009) faz todo sentido quando observado o personagem Kvote empenhado na busca pelo nome mágico do elemento natural “vento”, e como ele nos permite observar as linguagens do seu mundo em sincronia com o corpo, é de certa forma, mágico. Poderia citar o poder das palavras de forma literária como na série Coração de Tinta (Editora Seguinte, 2006) da escritora alemã Cornelia Funke, ou em O nome da Rosa (Editora Record, 2019) de Umberto Eco, ou talvez em Vidas Secas (Record, 2019) de Graciliano Ramos. De diversas formas a literatura transforma a língua e a linguagem em expressões vivas a serem sentidas e vivenciadas pelo personagem e por nós, leitores. A língua é um organismo vivo.


O corpo humano é em sua sabedoria biológica, um organismo perfeito – exceto pelo sistema nervoso que só obedece e entende a si mesmo e já nasce matando quem o carrega – que busca a todo momento ter-se em pleno funcionamento. Nada no corpo humano é depreciado, o que não lhe serve ele não usa. Rejeita. O que é usado por demais, ele protege até exaurir.


Quer um exemplo? Comece a capinar lotes com frequência e logo a palma da sua mão estará cheia de calos. Os calos são respostas protetivas do corpo para a região que está sendo utilizada em excesso e pode se desgastar. Outro exemplo, o tal dente do juízo, numa clara evolução do homem, hoje se faz desnecessário. O corpo humano não mais o produz. Com a língua não é diferente. O que não é usado, é descartado. No processo de escrita e na literatura o que não se usa, se rejeita.


As mudanças na língua ocorrem quando uma parcela da sociedade ou “toda ela”, passam a usar determinados termos cotidianamente. Nasce-se num determinado grupo, se aprimora, se aflora e prolifera. Foi assim com “metendo o louco” gíria que tem diversos significados correlacionados ao que se ouve do interlocutor, “sirigaita” atual piriguete ou talarica, “quiprocó” mais conhecido como treta, “safanão, sopapo”, comumente conhecido como murro, soco, petardo (que também está sumindo), “encontro” hoje muta-se para date, uma palavra desnecessária no vocábulo nacional e por aí vai. A língua é um elemento neutro. O indivíduo que faz uso da mesma que dá a conotação que melhor lhe aprouver. Sendo assim, as mudanças que a linguagem e a língua sofrem são representações de uma sociedade. Foi assim com o latim dito vulgar, Espanhol Peninsular e o Latino-americano, Inglês Norte-americano e o Inglês Europeu.


A literatura não é um elemento neutro.


Em decorrência de diversas mudanças, é correto afirmar que a literatura também sofreu alterações no decorrer dos tempos, tanto na forma como se é apresentada quanto na forma de ser consumida. Tanto em quem apresenta (autor) e quem a consome. Essas mudanças tanto na forma quanto nos gêneros interpolam uma sociedade em transformação. As “inclinações comunitárias linguístico-culturais sempre embalaram as tendências democráticas, nos países de língua portuguesa” afirma Benjamin Abdala Júnior em seu livro Literatura comparada e relações comunitárias, hoje.


O homem é um produto do meio em que vive e que a todo momento busca mudar o espaço em que vive para viver melhor. A linguagem é uma ciência que é moldada de acordo com sua usabilidade tal qual o homem e o espaço em que está inserido. Dessa forma, o entendimento da língua quanto um objeto de uso comum, não se dá apenas pela fala. Mas também pela compreensão de formas, espaços, conteúdos, ações, imagens e sensações que nos rodeiam. Tal compreensão determina o entendimento que temos em relação ao que nos cerca.


Nesse sentido, a formação de uma língua se dá pela extensa colaboração de termos, pensamentos, gírias, inclusões de diversas formas que se aglomeram no cotidiano e nas vivências e, assim chega-se a uma determinada variação que, a todo momento se transmuta, uma vez que a língua é um organismo vivo e em constante evolução. Corroborando essa afirmação, Paulo Freire diz que “o sujeito está dentro da linguagem (FREIRE, 1976, p. 60)”, e a linguagem é parte integrante do sujeito. Um objeto cultural vivo.


A literatura é objeto de transformação assim como a linguagem é propriamente a língua, e certamente o ser humano. Entender que essas mudanças ocorrem e que são necessárias, determina como nós leitores e escritores enxergamos e vivenciamos tanto a sociedade quanto a própria literatura e o objeto “cultura”. Diferentemente do que se dizia que “a literatura vai morrer” quando deixou de ser obrigatória em sala de aula, vejo como uma nova perspectiva de se alterar a forma como a literatura é apresentada. A literatura não irá morrer. E se,

[...] por outro lado, se a literatura vier a morrer, é bem provável que o seu desaparecimento deixe um vácuo que dificilmente poderá ser preenchido com as formas dominantes de comunicação cultural do mundo contemporâneo, frequentemente marcadas pela previsibilidade e pelo cálculo programático. (Sérgio Luiz P. Bellei)

E por fim, a língua sempre irá mudar. Não importa a época que vivemos ou o período que passamos. A língua irá se adaptar à necessidade do homem, como eu disse anteriormente. Basta termos a capacidade para compreender que essas mudanças também são necessárias. A evolução passa pelo processo de aprendizagem e de educação, e quando eu digo educação, não me refiro somente ao letramento, mas também à socialização.

1. Dicas de leitura:


Uirapuru. Febraro Oliveira. Editora Life. 2021. CLIQUE PARA VER


Charlene Shelda. Fábio Gondim. Editora Life.2021. CLIQUE PARA VER


Noites de Sol. Bruno Bucis. Editora Trampolim. 2019. CLIQUE PARA VER



2. Referências:


CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Ouro sobre azul. Rio de Janeiro. 2011. Disponível em < LINK >. Acesso em: 11 de abril de 2022.

BELLEI, Sergio Luiz P.– A literatura, hoje: crônica de uma morte anunciada. Revista literária Gragoatá. Niterói, n. 23, p. 111-134, 2. sem. 2007. Disponível em < LINK >. Acesso em: 14 de abril de 2022.

ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Literatura comparada e relações comunitárias, hoje. Ateliê Editorial. São Paulo. Disponível em < LINK >. Acesso em: 14 de abril de 2022.


 


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